Análise de 3 obras dos artistas sertanejos Duduca e Dalvan

1. A DUPLA DUDUCA (JOSE TRINDADE) E DALVAN (JOSÉ GOMES DE ALMEIDA).


Falecido no ano de 1986, Duduca, o qual tem o nome de José Trindade, nascido em Anápolis, Goiás, em quatro de julho do ano de 1936 e falecido em São Paulo no dia 17 de fevereiro de 1986, formava com Dalvan, o qual tem o nome de José Gomes de Almeida, nascido na cidade de Planaltina, no Estado do Paraná, no ano de 1937, uma dupla sertaneja a qual tornou-se de grande popularidade.            

Pouco antes de sua morte, Duduca, gravou "Massa Falida", um "caterete jovem", parceria de Domiciano-Dalvan, que abre seu último disco com nada menos que 13 faixas, quase todas de autoria de Dalvan com diferentes parceiros. Neste álbum Dalvan apresenta sua filha, a menina Dalvana, na toada "Conselho de Pai".

Na verdade foi uma pena Duduca falecer tão cedo, uma vez que sua morte aconteceu praticamente em uma época que estavam conquistando os sertanejos brasileiros.            

Dalvan iniciou sua carreira em São Paulo, no ano de 1977, aos 40 anos de idade. No ano seguinte formou dupla com Duduca que durou mais ou menos 12 anos. Inicialmente começou com um estilo basicamente romântico, mas sem deixar de lado os ritmos mais tradicionais do interior, e neste período foi considerado ao lado de José Rico como o rei da voz sertaneja. De forma próspera gravou diversos discos ao longo de sua carreira. Fez sucesso em 1986 com a música "Massa falida", de sua autoria e gravada quando fazia parte da dupla Duduca e Dalvan.            
Nos anos de 1980, a Gravadora Continental pretendia dar uma sacudida em seu acervo e elenco, e estava enfrentando algumas de suas maiores crises nos últimos anos e mantendo ainda em seu faturamento um repertório urbano.            

Neste contexto de dificuldades a Continental lança as composições de Manuelito Nunes (Manoel Adão Nunes da Silva, na época com 42 anos) inúmeros sucessos sertanejos: "Rastros na Areia" e "Espinheira", com Duduca e Dalvan; "Noite de Devaneio" e "Estrada Sem Saída" com Matogrosso e Mathias, além de "Canarito Dobrador", que deu um prêmio ao garoto Donizete num festival no México. Mas neste trabalho estaremos ressaltando apenas os trabalhos de Duduca e Dalvan, as músicas “Espinheira, Massa Falida e Rastros na Areia”.              

Este compositor que em parceria com Duduca e Dalvan apresentou seus trabalhos levantou diversos temas ma época, como por exemplo: o grande juízo, o direito de nascer, etc. sempre insistindo em temas religiosos e espiritualistas. Suas canções eram rancheiras e guarânias, etc. e naquela época alguns críticos insistiam que eles visavam um mercado mais amplo, o dos crentes.  

1.1         A CANÇÃO “ESPINHEIRA”  

Eta espinheira danada                                
Que pobre atravessa pra sobreviver,       
Vive com a carga nas costas                                
E as dores que sente não pode dizer;              
Sonha com as belas promessas      
De gente importante que tem ao redor        
Quando entrar o fulano                           
Sair o ciclano será bem melhor   
Mas entra ano e sai ano        
E o tal de fulano ainda é pior                
Esse é meu cotidiano                                 
Mais eu não me dano pois Deus é maior.
O mundo não acaba aqui                   
O mundo ainda está de pé                        
Enquanto Deus me der a vida                        
Levarei comigo esperança e fé!
Eta que gente danada                               
Que esquece de vez a palavra cristã    
Ah, eu queria só ver,                                    
Se Deus se zangasse e voltasse amanhã;               
Seria um Deus nos Acuda                             
Um monte de Judas querendo perdão      
Com tanta gente graúda                                
Implorando ajuda com a Bíblia na mão                     
Mais a esperança é miúda                              
E a coisa não muda não tem solução:        
Nem tudo que a gente estuda,                                 
Se agarra e se gruda, rebenta no chão.              

A primeira estrofe da música “Espinheira” no final ele enfatiza a confiança em Deus, diante de tantas mentiras e promessas políticas. O que podemos chegar à mesma conclusão do profeta Jeremias: “Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor! [...] Bendito o homem que confia no Senhor, e cuja esperança é o Senhor. Jeremias 17.5-7”.            

No refrão ele conclama seu auditório a olhar para frente, para o futuro, dizendo: “o mundo não acaba aqui, enquanto Deus lhe der a vida ele levaria com ele a esperança e a fé”. O que podemos olhar para os versos de Hebreus no capítulo onze, com bastante cuidado e atenção.             

Na segunda estrofe, ele denomina os traidores do povo de hipócritas. Porque estes esqueceram a “Palavra Cristã”. Será que o poeta está convocando estes para a Bíblia? E continua afirmando com veemência a certeza do juízo de Deus. O interessante é que eles enfatizam nesta poesia uma alta cristologia. Para o artista o Deus de que ele falava é o mesmo que se zanga e voltará um dia para proceder ao juízo final.               

No entendimento do artista os hipócritas não estariam bem no dia do juízo porque sua esperança é miúda, “a coisa não muda não tem solução”, ou seja, não há mudança de vida, de caráter, retorno à fé cristã, etc. e parece que no final da estrofe ele dá um tom de desanimado, porque ainda não chegou o juízo “Nem tudo que a gente estuda, Se agarra e se gruda, rebenta no chão”.

Em outras palavras, a única saída para o brasileiro honesto, que se firma na fé cristã é o juízo divino, porque este não falha.

1.2         A CANÇÃO “MASSA FALIDA”

Eu confesso já estou cansado de ser enganado com tanto cinismo          
Não sou parte integrante do crime e o próprio regime nos leva ao abismo.
Se alcançamos as margens do incerto foram as decretos da incompetência                          
Falam tanto sem nada de novo e levam o povo a grande falência!

Não aborte os seus ideais                   
No ventre da covardia                           
Vá à luta empunhando a verdade                         
Que a liberdade não é utopia!

Os camuflados e samaritanos nos estão levando a fatalidade,                  
Ignorando o holocausto da fome, tirando do homem a prioridade.                   
0 operário do lucro expoente e a parte excedente não lhe é revertida,  
Se aderirmos os jogos políticos seremos síndicos da Massa falida!

Não aborte os seus ideais...              

Já nesta música “Massa Falida” seu tema é mais social. Parece um ataque sutil ao regime militar que governou o país por mais de 20 anos. Mas se analisarmos o contexto desta música o artista entende que o regime não acabou, suas raízes permaneciam ainda na pessoa de alguns outros políticos, quando muitos pensavam que já havia acabado.            

Isto porque ele diz que está cansado de tanto cinismo e como a coisa ainda continua, o povo está se decretando sua própria falência.            

Mesmo assim para o artista há ainda uma esperança. Esta esperança é não abortar os ideais, empunhar a verdade porque a liberdade não é utopia. Ou seja, ele faz um apelo para que a liberdade, os direitos e garantias fundamentais do homem, saiam do imaginário e sejam de fato, reais.            

Na ultima estrofe ele denomina a camada política de “camuflados e samaritanos”, os quais na linguagem religiosa seriam os hipócritas e detestáveis do contexto do Novo Testamento. Ao se referir ao “holocausto da fome” podemos retornar à época do nazismo da segunda guerra mundial quando milhares de inocentes foram vítimas do holocausto. Mas há ainda uma resposta, podemos dar a volta por cima. Não abortar os ideais, empunhar a verdade, porque somente assim a liberdade sairá do imaginário.  

1.3 A CANÇÃO “RASTROS NA AREIA”            

Embora exista controvérsia sobre a autoria da poesia “pegadas na areia”, uma vez que alguns dizem que a verdadeira autora desta é Mary Stevenson, neste trabalho o objetivo não está apenas na autoria ou na versão desta, mas o que esta mensagem de tanta importância e cantada por artistas sertanejos de sucessos foi importante para aqueles que a ouviram.            

Quem é que não leu a poesia "Pegadas na Areia" em quadro ou em capas de caderno? Para os que não se lembram é assim:

"Uma noite eu tive um sonho... Sonhei que estava andando na praia com o Senhor e através do céu, passavam cenas da minha vida. Para cada cena que passava, percebi que eram deixados dois pares de pegadas na areia: um era meu e o outro era do Senhor. Quando a última cena passou diante de nós, olhei para trás, para as pegadas na areia e notei que muitas vezes, no caminho da minha vida, havia apenas um par de pegadas na areia. Notei também que isso aconteceu nos momentos mais difíceis e angustiosos do meu viver. Isso me aborreceu deveras e perguntei então ao Senhor: Senhor, Tu me disseste que, uma vez que resolvi te seguir, Tu andarias sempre comigo, em todo o caminho. Contudo, notei que durante as maiores atribulações do meu viver, havia apenas um par de pegadas na areia. Não compreendo porque nas horas em que eu mais necessitava de Ti, Tu me deixaste sozinho. O Senhor me respondeu: Meu querido filho. Jamais eu te deixaria nas horas de provas e de sofrimento. Quando viste, na areia, apenas um par de pegadas, eram as minhas. Foi exatamente aí que eu te carreguei nos braços".            

O autor desta poesia para a maioria é um homem simples. Ele nasceu no Brás e foi segurança do São Paulo Mart Center. E muita gente imaginava que o poema era obra de um santo ou de um padre. Em parte, é verdade, porque o poeta realmente é um dedicado religioso.

Seu nome, José Spera, que só resolveu sair do anonimato, ao deparar com o ator Francisco Cuocco declamando "Pegadas na Areia" no Fantástico, em 1984, dizendo que não sabia quem havia feito aquela maravilha. José já fez de tudo. Boêmio, romântico, farrista e brincalhão, ele descobriu o dom de escrever e poetisar os sentimentos.           

"Pegadas na Areia" foi o início da descoberta, composta quando José tinha 24 anos, em 1960, movida por um estranho sonho, uma vontade de escrever, um encontro de verdade com o Senhor. Congregado Mariano da Igreja Bom Jesus do Brás, pai de dois filhos - Reginaldo e Regiane- José nunca aceitou a idéia de ser poeta, vindo a reconhecer tal fato nos anos 90.      

Atualmente, José tem mais de 1.000 poesias, algumas delas musicadas por nomes como Chitãozinho & Xororó, Jackson Antunes e Chico Lobo, Duduca & Dalvan, entre outros. Esta poesia de José Spera, “Pegadas na Areia” não é de nosso objetivo buscar a verdadeira autoria.

Se ele não é seu autor, mesmo assim merece grande credibilidade, pelo fato de dar-nos esta versão. Até porque esta poesia ficou bem conhecida ao ser declamada no fantástico e por ser cantada pela dupla de grande sucesso, Duduca e Dalvan.

E, além disto, através da canção, ela abençoou muitos corações desesperados onde a igreja e os crentes não estavam ou não poderiam chegar, como por exemplo, as boates, cabarés, discotecas, bailes, postos de gasolina, local de jogos, etc.


O sonho que tive esta noite foi um exemplo de amor
Sonhei que na praia deserta eu caminhava com nosso Senhor
Ao longo da praia deserta, quis o Senhor me mostrar
Cenas por mim esquecidas, de tudo que fiz nesta vida
Ele me fez recordar
Cenas das horas felizes, que a mesa era farta na hora da ceia
Por onde eu havia passado ficaram dois pares de rastros na areia


Então o Senhor me falou: Em seus belos momentos passados
Para guiar o seus passos, eu caminhava ao seu lado
Porem minha falta de fé tinha que aparecer
Quando passavam as cenas das horas mais tristes de todo meu ser
Então ao Senhor reclamei, somente dois rastros ficou
Quando eu mais precisava, quando eu sofri e chorava
O Senhor me abandonou

Naquele instante sagrado que ele abraçou-me dizendo assim:
Usei a coroa de espinhos, morri numa cruz e duvidas de mim
Filho, estes rastros são meus, ouça o que vou lhe dizer
Nas suas horas de angustias "Eu carregava você"              

Não gostaria de fazer nenhuma análise teológica como fiz das outras canções, nesta, Rastros na Areia. Como ela é uma linguagem extremamente poética, qualquer análise que eu fizer poderá acabar limitando sua mensagem.            

Penso eu que por ser tão poética, a mensagem desta, pode ficar na nossa imaginação. Sempre ressaltando que esta poesia fala do cuidado do Senhor para com os seus filhos. Podemos imaginar até no Salmo 23, quando o salmista diz: o Senhor é meu Pastor, nada me faltará.            

Além disto, podemos pensar nas andanças do Filho de Deus, no período que conviveu com seu povo, sentindo fome, frio, sede, sorrindo, chorando, etc. podemos também comparar esta poesia com aquela parábola do Bom Pastor que dá sua vida pelas ovelhas, que Jesus a contou quando estava indo à Jerusalém para ser morto pelos nossos pecados.            

Enfim, fica melhor ficar no imaginário esta poesia, e permitir que nossas mentes comparem esta poesia, com as experiências que tiveram com o Filho de Deus, quando enquanto estavam sendo abençoados e amados, ao mesmo tempo estavam resmungando e achando que o Senhor os deixou no acaso.

E que até a forma de o Senhor nos falar, e puxar nossa orelha tinha um cuidado pastoral de não ofender-nos quando pensávamos erradamente porque nas nossas horas de angustias ele nos carregava.  

CONCLUSÃO            

Sou grato ao Dr. Egg por me privilegiar lecionando esta disciplina. Aprendi muito e principalmente sobre a necessidade de dialogar com a cultura através da teologia.

De: 07/01/2012
Por: Pr. Márcio Aguiar da Silva



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